Parte do todo, parte de mim…
...a carne contra carne, sacia a alma que não vive em pleno orgasmo. Seios lambidos, dentadas que infligem doce dor. O inesperado caminha lado a lado com o vento que se dá por anunciar. Os lábios incham, a paixão liberta-se, envolvendo tudo à sua volta, atravessa o tempo, o espaço e o coração. É invisível sobre o olhar mas visível ao sentir. Paixões são ondas de música imperiosa, soltas de convenções que os homens tecem.
O Vazio
"Trinta raios convergem para o centro.
Mas é o vazio mediano
que faz andar o carro.
Modela-se a argila para com ela fazer vasos,
mas é do vazio interior
que depende o seu uso.
Numa casa abundam portas e janelas,
é ainda o vazio
que permite habitá-la
O ser tem aptidões
que o não-ser emprega"
Lao-Tseu, Tao-tö-King
E se tudo fosse um gigantesco cenário feito de mil e um fragmentos espalhado pelo infinito. E nós percorrendo-o a alta velocidade, esses mesmos fragmentos, viveríamos numa dança infinita de movimentos desconexos, como se estivéssemos a fazer um filme e a vê-lo ao mesmo tempo, sem saber o principio nem o fim. Pois na verdade somos também fragmentos espalhados e espelhados, que viajamos em dança eterna sobre mil pedaços de matéria.
Navego e manobro mares de fantasia!
Será que posso atracar no porto da verdade?
Também pode ser no cais da realidade!
Trago mercadorias exóticas no convés desta nau, que vagueia por mares agitados de sonhos adiados. Serão eles a minha veracidade? Ou apenas ilusão que me deixa inebriada...
São as vagas tanto agitadas como calmas que me fazem acordar, olhar e saborear o sentimento que se desprende.
Na minha direcção vem uma vaga chamada paixão. É ela que não me deixa atracar à razão …
Serão os sentimentos instantâneos? Como poderemos então analisar a sua veracidade? Pela confrontação?
AMOR VIVO
Amar! mas dum amor que tenha vida...
Não sejam sempre tímidos harpejos,
Não sejam só delírios e desejos
Duma doida cabeça escandecida...
Amor que viva e brilhe! luz fundida
Que penetre o meu ser - e não só beijos
Dados no ar - delírios e desejos-
Mas amor... dos amores que têm vida...
Sim, vivo e quente! e já a luz do dia
Não virá dissipá-lo nos meus braços
Como névoa da vaga fantasia...
Nem murchará do sol à chama erguida...
Pois que podem os astros dos espaços
Contra uns débeis amores... se têm vida?
Antero De Quental, Sonetos Completos
P.S.: quero isto. será que me consegues dar?
BOAS FESTAS COM MTAS PRENDINHAS E COISAS BOAS :D ****
Escrever sobre a vida, sobre a alegria, a tristeza e a melancolia. E porque não escrever sobre a morte. Será que a dor da morte, fica apenas nos corações, de quem cá fica para contar a história? A morte é sempre um desafio à lógica. È o que de mais certo e concreto podemos esperar da vida, ela governamos subtilmente. Apenas a ela respondemos sem questionar. O nosso suposto fim é o nosso maior ponto de interrogação. A morte imprime-nos um sentimento de fora de controlo que nos imite à necessidade de viver. É ela que nos faz questionar os nossos limiares. E por mais que ela se apresente como um ponto de interrogação, nós para toda a eternidade procuraremos uma resposta, para o que está por detrás daquela máquina gigantesca de reciclagem. Tantas palavras… para tentar descrever algo que não se conhece.

Magic Garden (Zaubergarten), March 1926. Paul Klee
Partida, despedida, sabedoria cristalina.
Vontade, saudade, veracidade e elegia.
Transbordam pelas bordas do cálice da vida.
Alegrias desmedidas perfuram o ser de questões imensuráveis, infinitas e concisas.
Esquecidas pelos bancos da memória altiva.
O chamado insistente para o acordar da mente.
Abrir os olhos e sorrir.
Invenção solidão, mártir sem razão.
Questões cruéis, saudades fieis.
Dadaismos, surrealismos, depressão da estrutura para a união da cultura.
Por ruína insistente das pernas incoerentes.
São cegos e intuitivos os uivos incessantes de corações que fodem ao luar sobre o crepúsculo da madrugada.
É dado como sabido e esquecido o amar e o mar.
Emoções, perdidas ao vento, esse não encontra alento.
Ansiedade sobre a verdade e sobre a impossibilidade.
Palavras mil são a primavera do Outono.
E o verão é apenas um grão onde lampejam corações.
Derivar, divagar, correr, saltar. Viajar, viajar. Percorrer o olhar, deslumbrar a alma. O timbre da voz envolve o corpo esgueira-se e enleia-se com o espírito. A alma jubila, o olhar cintila. Devaneio, devaneio…
Viajar, viajar
Por terra
Por mar
Pelo espaço
Sem dar um passo
Fechar os olhos e sonhar
Imaginar, inventar, criar
Castelos no ar
Pernas nos braços
Barcos com olhos
Narizes suspensos no ar
Nuvens bicudas
Derivar, divagar
Saltitar sem um só passo dar.
Sonhar, viajar, viajar.