E se o mundo se calasse, parasse de inventar e ditar uma liberdade fictícia que determina regras e hierarquias. Pedaços de leis inventadas para uma ordem em desordem. E se o mundo se calasse e parasse de inventar estruturas que não reinam no coração nem alma de quem por ele se passeia. E se o homem abrisse os olhos e visse as mortalhas pelas quais ele se envolve. E se alguém gritar, e o mundo cessar. E se o contrario for algo não dual, como dita o imaginário. E se no fim o vazio reina, e se no inicio o vazio reina, o que existe no meio? E se o mundo abrisse os olhos as regras medíocres, e reparasse nem que fosse por um mero instante a ilusória morte que cria e amordaça a existência. E se a fé e a esperança fossem fragmentos de uma imaginação em decadência. E se eu parar de escrever, os pensamentos consumiram-me até a exaustão. Certo, errado, correcto, incorrecto. Isto e aquilo, não é assim, porque alguém que não sentiu, assim o disse. E se o mundo se calasse, e vivesse? Sem perguntar porquê, sem criar respostas para o que não pode confirmar. E se o mundo morresse, que validade teria o que existe, conceitos criados por agentes contraditórios. E se as nuvens fossem letras, quando chovesse, frases feitas caíam em cima de nós. Mas para tal, não é preciso que as nuvens fossem letras. Já existem seres que acordam da morte para o fazerem. Ignotos da extensão da liberdade, e da sua eternidade de forma, acorrentados ao medo da não existência, criam vedações que os tornam em fragmentos do que poderiam ser. E se nada existisse, e se o nada fosse uma impossibilidade, conceito abstracto para ludibriar a infinidade, amordaçando-a. E se o ser não tivesse tempo nem lugar, pela simples razão que julga ser. E se tudo não passar de um ilusão. E se tudo for como é. E se eu me calar? É o movimento que cria a existência, e se ele cessar, qual a relevância de aqui estar? E se…
Alma oca, solta palavras no azul-escuro de uma noite de luar:
Inutilidade, cigarro após cigarro, agarro palavras, morrem antes da impressão. Dispersão vagueia nos recantos mais fundos do poço da alma. Indecisão: rodopios, anestesia de informação. É apenas uma manobra de inversão. Vaga sensação. A nudez do olhar revela o breu da alma, vazia, vazia, vazia…Como antes as palavras escorriam, como se fossem cataratas de pensamentos, que com uma rede no fim do regato apanhava, seleccionava e aglomerava. Fizeram uma barragem de material inerte, a cascata secou e rio do meu pensamento em areia se tornou.
Aqui deixou de existir movimento, tudo é estático. Espectros acorrentados, percorrem avenidas de pensamentos. Olham o mundo, vêem todos os seus pontos de vista, lembram-se de paisagens esquecidas. Vazio de mim, de ti, de nós. Impertinência, importância, adjectivos, substantivos, virgulas, consumidas, parágrafos, apagados, vida em retalhos, ilusão, entraves, travessão, olhos, chaves, findados, feriados, adiados, pontos, pontos e virgulas, dois pontos, ponto final, reticencias… Alquimista das palavras, enleadas em espirais metamorfoseadas. Sombra alheada, imprime pensamentos vagos, dispersos, acorrentados…Vaso carnal, inferno astral, metáforas incompletas, palavras amordaçadas, intercessão, morte, reduto sem salvação.
Sinto uma necessidade quase efervescente de me libertar.
Largar as amarras e voar.
Partir e nunca mais regressar.
Correr e saltar sem uma só vez parar.
Desejo ser uma fita de seda que escorrega pelo infinito mar.
Deslizar ao sabor da maresia e dos seus efémeros gentis ressaltos.
Que maravilha seria então dançar ao sabor do luar.
Ser uma estreita sombra sobre o titânico mar.
Ser ao mesmo tempo o sabor de um limão,
aquele que arde mas tudo cura,
no mesmo instante o sabor de um queijo
ao paladar de um querido seu amante.
Ser uma flor que desbota pela manhã.
Ser cores infinitas de sabores e olhares.
Ser a beleza vã, de alguém que observa o infinito,
sem saber que dele faz parte também.
Se ao menos o mar fosse céu e a terra mar. Os peixes pássaros e os pássaros peixes. O sol a lua, a lua o sol. E se, e se…O Outono a primavera e o verão o Inverno. Apenas nesse outro inverso, eu seria eu e tu ao mesmo tempo. Aí, eu ou tu poderíamos, voar pelas imensas asas do iminente reconhecimento, que se estendem como uma onda acabada de rebentar de encontro a areia. Voar, rodopiar em pensamentos tão fantásticos que nos afogaríamos na gigantesca vida de cada um deles, absorvidos novamente por sentimentos nunca antes revelados. E se o branco fosse verde e o azul fosse amarelo, como seria o mundo, como seríamos? E se as estrelas saltassem de um sítio para outro como que se dançassem. E se...
"Deve-se estar sempre embriagado. Nada mais conta. Para não sentir o horrível fardo do Tempo que esmaga os vossos ombros e vos faz pender para a terra, deveis embriagar.vos sem tréguas.
Mas de quê? De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha. Mas embriagai.vos.
E se algumas vezes, nos degraus de um palácio, na erva verde de uma vala, na solidão baça do vosso quarto, acordais, já diminuída ou desaparecida a embriaguez, perguntai ao vento, á vaga, á estrela, á ave, ao relógio, a tudo o que foge, a tudo o que geme, a tudo o que rola, a tudo o que canta, a tudo o que fala, perguntai que horas são; e o vento, a vaga, a estrela, a ave, o relógio, vos responderão: " São horas de vos embriagardes! Para não serdes os escravos martirizados do Tempo, embriagai.vos sem cessar! De vinho, de poesia ou de virtude, à vossa escolha"
Baudelaire
Sinta mais. Dizem cartas tiradas ao acaso. Sentir o quê? O que há para sentir, quando se estás anestesiado de vazio? Viver em anarquia, sobreviver por crer em nada. Se ao menos o céu fosse terra…Azul de ti, ofuscante de mim. Estimular, sussurrar… o roçar da carne, poro com poro em vibração, ondulação tentacular, soluços ténues. Humor com pudor… sentir mais… sentir em demasia, sentir…
Azul estonteante
Mar ardente
O fundo do poço é azul
O teu interior é infinito
Círculos oblíquos
Em abraço perpetuo
O homem azul
No meu horizonte
Deambula na minha retina
Essa é a sua terra,
O sol o meu inconsciente
A lua a consciência
As estrelas as minhas emoções
Os planetas os meus outros eus
Os comentas os meus picos de tensão
Sim o mundo é louco,
E nós fazemos parte dele…
Curvas, rectas, paralelas, desaguam numa semente, crentes na unidade do processo. Horizonte enevoado, bruma assustada, pelo o vento que derruba a muralha da derrocada. Irreversível. Agulha no palheiro, soalheira transposição da realidade. Sonante claridade. Pasmos em lastros. Corrupio em círculos, triângulos, quadrados, rectângulos. Castelos no ar, nuvens no chão. Murmúrio de ilusão. Estrelas cadentes…
Mar inconstante, maresia maldita, em claustro invisível. Geometria, analogia, espaço confinado na memoria esquecida. Lábios rubros, vinil ofuscante. Seda penetrante. Copula ambulante. Prazer deslumbrante. Teia, ceia, amoreira…meia de seda sobre o pescoço nu. Letras soltas, preenchem espaços em branco, de negro ilegível.
No fim, no fim, tudo passa como um sopro de vento frio ou quente.
No fim, no fim, toda a memoria não passa de uma gargalhada.
No fim, no fim, o vazio parece ridículo.
No fim, no fim, nada é nada.