Chove, chove. Não chove só lá fora, chove aqui e agora.
Nuvens espartanas invadem-me a memória.
Consomem-me de dentro para fora.
Desilusão, confusão, desgosto,
Aglutinam-se na memória da retina.
Desgosto, desgosto, desgosto.
Dor, dor, dor.
Sentir, sentir, sentir.
Sentir demais, tão vorazmente, que apenas a mágoa sobressai.
MÁGOA – MÁ – GOA – M-À-G-O-A – A-O-G-À-M – AOGÁM
Vagueia no meio do imenso oceano
Que desconhecemos
E que tudo contem
Diluição estranha,
As entranhas reviram.
Ira encoberta em ladainhas.
Lírios, papoilas, erva fresca, sol dourado, lua prateada.
Curiosidade, diferenças, divergências.
Contornos de sentimentos, incompreensão.
Bandas, bandas, bandas.
Alegoria divergente que ilude corações.
Apatia introvertida
Mitigada a independência
Anda, esperneia comigo,
Por entre papoilas dispersas sobre o vento
Do pensamento que nos atormenta.
Curvas, rectas, paralelas, desaguam numa semente, crentes na unidade do processo. Horizonte enevoado, bruma assustada, pelo o vento que derruba a muralha da derrocada. Irreversível. Agulha no palheiro, soalheira transposição da realidade. Sonante claridade. Pasmos em lastros. Corrupio em círculos, triângulos, quadrados, rectângulos. Castelos no ar, nuvens no chão. Murmúrio de ilusão. Estrelas cadentes…
Mar inconstante, maresia maldita, em claustro invisível. Geometria, analogia, espaço confinado na memoria esquecida. Lábios rubros, vinil ofuscante. Seda penetrante. Copula ambulante. Prazer deslumbrante. Teia, ceia, amoreira…meia de seda sobre o pescoço nu. Letras soltas, preenchem espaços em branco, de negro ilegível.
"Foi o tempo que perdeste
com a rosa
que tornou a rosa
tão importante para ti."
(O principezinho,
de Saint-Exupéry)
...idiota! quem mandou?
Tu
Tu
Tu
Que me invades a memória e despertas o que está adormecido
Tu
Tu
Tu
Como te chamas?
Tu
Tu
Tu
Como és?
Tu
Tu
Tu
O que queres?
Tu
Tu
Tu
Que me assustas
É por te querer
O medo nasce
E eu petrifico
Não sei ao certo se quero saber quem és
Assim sei que para sempre te amarei
A ti
A ti
A ti
O piano de cauda das estrelas
tem raízes na música dos lagos.
Amar é a arte da música
num corpo moribundo. Morre-se
de um pequeno átomo de ansiedade e isso
é uma regra do jogo; só assim a morte andará descalça como
uma violeta pelos jardins da noite; só assim
nos restará a morte antes do fim.
O fruto do coração é pouco, semelhante à mágoa.
Olhar é uma página. Percorre-a a consciência de quando
não acontece nada. É preciso duvidar semeando limites
para ser-se ilimitado -- eis quando será legítimo enganar
os deuses. Maior que a montanha é
a gota de orvalho; maior que o sol é o movimento
da sombra. Os pássaros
não acontecem: vivem-se. É tarde
para inscrever o discurso da alegria
nas estruturas do ar?
in O livro da noite, Joaquim Pessoa.
Sonhei, sonhei, sonhei com castelos no ar, em cima de areias movediças. Sonhei acordada, sonhei de dia, de noite, toda a vida. Sonhei que via através de uma venda na vista. Mentira pois apenas vi o que queria. Sonhei com paisagens já mais vistas e descritas. Sonhei ser e pertencer, esquecendo-me de que tudo criei sozinha. Sonhei com tudo e nada, viajei para alem do limiar da compreensão e da saturação, pois são os sonhos que me dão vida.
Anda…
Segue-me
Persegue-me
Envolve-me
Com um lenço de seda
Projectado pela retina inflamada do desejo
Anda…
Olha para o que não tocas
Anda…
Passo a passo a meu lado
Contorce-te ao som dos meus gemidos
Numa noite gélida, sobre o céu azul-escuro
Anda…
Ama-me
Anda…
Olha-me nos olhos
Anda…
Beija-me os lábios pintados de rubro inflamado
Anda…
Amassa-me em cornucópias de abraços apertados
Anda…
Cola-me ao teu corpo suado
Anda…
Tira-me o folgo
Anda…
Num labirinto feito de seda,
Deslizar, trocar o olhar, que nos ilude.
Num labirinto feito de seda,
Dispo-me
Esfrego-me
Confundindo-te com a seda.
Alimento a alma sequiosa do limiar que nos separa
A retina perdida,
Numa conjunção de traços dispersos sobre a pele desfeita
Num labirinto feito de seda,
Danço para ti
Num labirinto feito de seda,
Vergo-me a ti
Num labirinto feito de seda,
A eternidade do meu amor
Rodopia em círculos invisíveis
Até te alcançar.
Anda…
Dá-me a mão
Fecha os olhos
Anda…
O labirinto feito de seda chama por nós
Anda…
Dá-me os lábios para saborear
As mãos para que elas toquem no fundo da minha alma
No fundo do poço…
Aquele poço em que te queres perder
Ele não tem fim
É um cair eterno dentro de mim
Anda…
O labirinto não tem fim, nem principio
Ele é feito dos nossos corpos nus…
O labirinto chama por nós
Anda…
Pés de bailarina.
Véus enigmáticos.
Embebidos em odor.
O corpo revira,
A alma jubila.
Atiça o olhar.
Molda a mente,
Que se emoldura
Em desejo.
E o corpo revira,
Gira e rodopia.
Pés de bailarina…
Movimentos fluviais,
Ondulantes.
Simbiose da mente/corpo/musica.
Pés de bailarina,
Universos desfeitos.
Satisfeitos, contrafeitos.
Pés de bailarina,
Sobre areias movediças.
Pés de bailarina,
Sobre o céu da tua retina.
Pés de bailarina,
Enroscados nas tuas ancas
Amordaçam-te, até te esvaíres, em espasmos.