"...Parece que aonde quer que vá, há drama. As pessoas são como piolhos: introduzem-se sob a pele e enterram-se lá. Coçamos e coçamos até fazer sangue, mas não nos livramos permanentemente deles. Aonde quer que vou, as pessoas estão a complicar a vida. toda a gente tem a sua tragédia pessoal. Já está no sangue: infelicidade, tédio, desgosto, suicídio... A atmosfera está saturada de infortúnio, frustração, futilidade..."
Trópico de Câncer, Henry Miller
"Era o dia dos ciúmes. Iria o amor tornar-se uma longa cadeia de ciúmes?"
Anaïs Nïn, Delta de Vénus
O corpo como objecto de arte.
Numa paisagem tardia…
Uma paisagem inconstante.
O corpo como suporte de vida.
A marioneta do tempo continuo.
A roda filosófica emerge.
Esmorece, bafo a bafo.
Um traço perdido sob a pele nua.
A descontinua razão,
Do entardecer do coito.
Frases feitas,
Frases de mel,
De fel.
O objecto da arte – O CORPO
Em palavras, em imagens retalhadas.
A sua importância, a sua relevância.
A entediante imagem que nos constrói.
A fisionomia da alma desenhada a tracejado.
Por todos os recantos da pele.
Há medida que vamos caminhado o destino traça-nos, marca-nos.
Envolve-nos com um pincel invisível (A VIDA) que nos rasga na carne o destino.
O DESTINO – a rede infinita que nós mesmo tecemos.
O corpo como base a tudo.
O corpo a alma, a alma o corpo.
A biologia incerta da imperfeição.
Os espaços vazios servem para ser preenchidos,
Ou não.
Existem coisas estúpidas na vida. Mas a mais estúpida, é não conseguir demonstrar o que se sente. Ter medo. Medo. Receio das consequências. Ter medo de dizer: eu gosto de ti. Ter medo de expressar o sentimento que corrói, o desejo que cresce e esmorece no mesmo instante em que nasce. Ter medo e não experimentar. Ter medo e fugir. A estupidez é a cobardia da alma. Os teus olhos rodopiam em colunas eróticas no meu inconsciente. E o desejo espreguiça por os meus sonhos fora. Invade-me amordaça-me. O desejo. O amor. O gostar. Sentir, sentir demais. Reprimir, desfalecer sufocada. Inibir o desejo, o sentimento... Não. Não consigo. Não consigo dizer. Não. Não consigo. Não consigo mostrar. Não. Não consigo ter reacção. Estou apaixonada e não o consigo demonstrar. Estou enleada. As palavras não saem, giram em ciclos viciosos, como se em ópío se tivessem embebido. Só posso dizer o que já te disse. Escondendo o remetente. Estou apaixonada…
Porque sim.
Porque não.
Porque isto é aquilo, e porque aquilo não é isto.
Porque eu digo isto, e aquilo.
Porque eu faço assim, e faço como faço.
Porque se eu quero aquilo, em vez de aqueloutro.
Se não existem normas.
Porquê existem modos de fazer uma coisa?
No mundo dos ses, tudo é possível.
Na “realidade” tudo é possível dentro dos limites da possibilidade.
Atingindo o grau de inimaginável
A, não é B. Porque B não é A.
Podemos sempre juntar A e B.
Podemos os agrupar, de diversos modos.
No entanto a norma por vezes cinge a possibilidade de algo.
Porque não.
Porque sim.
Céu aberto, azul alma, sem rumo. Esvoaça em sentido contrário, num turbilhão de contrariedades. O cheiro de um rosa putrificada. Palavras enleadas em raiva, demolhadas em perdição, fritadas na língua, atiradas ao chão. Restos de uma vontade atordoada. Maldito pensamento, nuvens negras, sol vermelho, o peso da cruz. Nos ombros despojados de fé. Opacidade, bruma de falta de caridade. Saudade…O que é a saudade? Saúda, salutar, o que deixou de perdurar. Imagem passada, vistoria ainda por apagar. Espírito de um momento. Alma da eternidade. Sentir falta. Fateixa ferrugenta da amargura de não ser. Liberdade de viajar pelo passado. Revisão, analise…Retorcer, ligar pontos cardeais sem saber. Olhar a alma do presente passado gravada no abismo da memória. Reminiscência do sentimento experimentado. Fecundar o que lá vai…abortar devaneios sobre o que não será. Céu maldito… O zénite de uma alma perdida…