setembro 25, 2006

Eu e tu, nós. Uma cama. Silencio.
O corpo como lençol de seda, colado, amarfanhado.
Tingido de suor.
Um gemido.
Um suspiro.
Uma gota de suor.
O vento que entra pela janela.
O adiar do inevitável.

Uma cama, duas pessoas.
O cheiro do desejo no ar.
Uma cama, duas pessoas.
O silencio do entardecer do coito.
Uma cama, duas pessoas.
Enroladas, amordaçadas.
Uma cama, duas pessoas…
A espera da infinidade do movimento.
Uma cama, eu e tu, nós.

Isto não é assim, aquilo é assado, e etc. é frito.
Isto e aquilo, não são como são.
São como alguém diz que é.
Deviam ser como são.
Apenas ser.
Ser, ter. Caiar o mundo com papel de lustro.
Calar. Suprimir. Brindar.
O silencio do amanhecer.
O traço do horizonte em espasmos.
O crepúsculo, o silencio. O silencio.

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setembro 23, 2006

Um dragão alado. Fantasiado. De mãos tremulas. As bocas tépidas entrelaçam-se. Em fogos de artificio fictício. A carne em chamas. Tece o diadema do orgasmo exuberante. Ri-te. O ser que se derrete em azeite. A insanidade de não conseguir ler o que descreves no olhar. A cama do desejo está feita. Deita-te.

Publicado por sc em 12:26 AM | Comentários (0)

setembro 16, 2006

Paul Verlaine

Arte poética

A Charles Morice

Antes de qualquer coisa, música
e, para isso, prefere o Ímpar
mais vago e mais solúvel no ar,
sem nada que pese ou que pouse.
E preciso também que não vás nunca
escolher tuas palavras em ambigüidade:
nada mais caro que a canção cinzenta
onde o Indeciso se junta ao Preciso.
São belos olhos atrás dos véus,
é o grande dia trêmulo de meio-dia,
é, através do céu morno de outono,
o azul desordenado das claras estrelas!
Porque nós ainda queremos o Matiz,
nada de Cor, nada a não ser o matiz!
Oh! O matiz único que liga
o sonho ao sonho e a flauta à trompa.
Foge para longe da Piada assassina,
do Espírito cruel e do Riso impuro
que fazem chorar os olhos do Azul
e todo esse alho de baixa cozinha!
Toma a eloqüência e torce-lhe o pescoço!
Tu farás bem, já que começaste,
em tornar a rima um pouco razoável.
Se não a vigiarmos, até onde ela irá?
Oh! Quem dirá os malefícios da Rima?
Que criança surda ou que negro louco
nos forjou esta jóia barata
que soa oca e falsa sob a lima?
Ainda e sempre, música!
Que teu verso seja um bom acontecimento
esparso no vento crispado da manhã
que vai florindo a hortelã e o timo...
E tudo o mais é só literatura.

Publicado por sc em 03:19 PM | Comentários (1)

Jorge Luis Borges


Arte poética

Mirar el río hecho de tiempo y agua
y recordar que el tiempo es otro río,
saber que nos perdemos como el río
y que los rostros pasan como el agua.

Sentir que la vigilia es otro sueño
que sueña no soñar y que la muerte
que teme nuestra carne es esa muerte
de cada noche, que se llama sueño.

Ver en el día o en el año un símbolo
de los días del hombre y de sus años,
convertir el ultraje de los años
en una música, un rumor y un símbolo,

ver en la muerte el sueño, en el ocaso
un triste oro, tal es la poesía
que es inmortal y pobre. La poesía
vuelve como la aurora y el ocaso.

A veces en las tardes una cara
nos mira desde el fondo de un espejo;
el arte debe ser como ese espejo
que nos revela nuestra propia cara.

Cuentan que Ulises, harto de prodigios,
lloró de amor al divisar su Itaca
verde y humilde. El arte es esa Itaca
de verde eternidad, no de prodigios.

También es como el río interminable
que pasa y queda y es cristal de un mismo
Heráclito inconstante, que es el mismo
y es otro, como el río interminable.

Publicado por sc em 03:13 PM | Comentários (0)

Um dragão alado. Fantasiado. De mãos tremulas. As bocas tépidas entrelaçam-se. Em fogos de artificio fictício. A carne em chamas. Tece o diadema do orgasmo exuberante. Ri-te. O ser que se derrete em azeite. A insanidade de não conseguir ler o que descreves no olhar. A cama do desejo está feita. Deita-te.

Publicado por sc em 01:12 AM | Comentários (0)

setembro 02, 2006

Vim do infinito, e dirijo-me para o início. Vivo num lugar sem morada. Numa casa, numa praia. Só existo eu, o mar, areia e uma cerejeira em flor. Aqui o tempo anda ao contrário. Volve inverso ao sentido do meu olhar. O fim disse-me que tinha de voltar. Para que encontrasse tudo o que deixei para trás. Com isso disse-me que tinha de viver, que tinha de encontrar os que deixei para trás. A sede de conhecer tudo de uma só vez, criou-me uma sebe. E sofreguidão de tudo rever. Cheguei ao fim. E tive de voltar. As caras de todos mudaram. Isto não é uma viagem no tempo. É dar a volta ao círculo infinito do tempo não contínuo. Inicio e fim lado a lado. Colados para toda a eternidade. Agora sei como funciona. Já não tenho nada que me dê esperança. As memórias são vagas. Como névoa da vaga fantasia. Nesta praia. Desta ilha o mar é verde, verde jade. A cor dos teus antigos olhos, a cor que me desafia. O mar rebenta, e encaracola na areia. A curiosidade reflecte-se nele. Dar a volta ao círculo infinito do tempo não contínuo. Inicio e fim lado a lado. Colados para toda a eternidade. A perfeita harmonia da união dos contrários…

Publicado por sc em 09:40 PM | Comentários (2)